Era um homem de carácter, honesto, sensato, sorridente, de coração bom, um homem honrado. Pertencia àquela geração que encara o trabalho como uma dádiva e por isso trabalhava sempre, nas suas coisas ao fim de semana, no seu trabalho todos os outros dias. Era raro parar, dizia que a reforma estava a chegar e que nessa altura passearia mais e teria tempo para descansar… apenas 3 meses depois de se aposentar, o destino apareceu-lhe mascarado de dor na perna; parecia apenas uma dor mas depois de intermináveis exames médicos não restavam dúvidas. Lutou com a alma de homem de esperança que sempre teve e mesmo nos momentos mais difíceis iluminava-se-lhe o rosto quando a sua neta mais pequena chegava, quando a sua mulher – por quem era apaixonado há mais de 40 anos – lhe chamava querido, quando a sua filha lhe dizia ao ouvido o quanto gostava dele.
Viveu pouco mas foi feliz, conseguiu fazer a sua obra, assistiu ao casamento do filho, levou a filha ao altar, viu crescer as três netas, tinha muitos amigos, era carinhoso e isso trazia-lhe ainda mais carinho. Quando se preparava para ter finalmente um pouco mais de paz e para poder gozar tudo o que a vida – supostamente – ainda teria para lhe dar, a doença apareceu, cruel, a fazer lembrar que nada somos face ao inevitável.
Como se continua se não estamos preparados para a partida? Como lidamos com a dor e com a ausência? O que fazemos à saudade, sabendo que é a mais austera das saudades? A presença do mistério e da incerteza nas nossas vidas é real mas preferimos quase sempre ignorar, andar para a frente e não pensar. E assim continuamos, com mais ou menos fé, que é apenas o que nos resta, a fazer o que é possível na loucura de todos os dias, para que os que ficam se sintam amados e amparados.
Qualquer problema perto da inevitabilidade da morte parece agora menor, sem relevância. Quantas vezes deixamos coisas por dizer porque agora não é oportuno e porque é preciso coragem e porque dá trabalho e porque simplesmente agora não? Que a tristeza sirva para percebermos que só temos esta vida e que é importante partir em paz, fazendo o melhor que sabemos, honrando quem nos faz feliz, dando sempre o que temos de melhor. Ele partiu tranquilo, com um leve sorriso de missão cumprida, faz-nos muita falta mas tenho a certeza de que houve festa no céu, afinal – como diz a música: “Deus leva os que ama. Só Deus tem os que mais ama.”
“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.”
Poema de Natal
Vinicius de Moraes, 1960