26/12/11

A Campanha da Felicidade

A Coca Cola resolveu fazer uma campanha pela felicidade: http://www.youtube.com/cocacolaportugal
Comercial ou não a verdade é que gostei muito da mensagem, se as marcas conseguirem fazer com que - ao menos - se sorria mais, já é uma coisa boa. Claro que não há almoços grátis e que as pessoas desenvolvem vínculos às marcas e que tudo isto faz parte de uma estratégia de envolvimento mas ainda assim não deixa de ser louvável.

Ainda mais louvável quando se percebe que não ficaram pela rama e que criaram o Instituto da Felicidade: http://www.institutodafelicidade.com.pt/ Obrigada à marca e aos professores do ISCTE Helena Águeda Mateus & Luís Miguel Neto pelo empenho. Parabéns à Ivity pelo design.



É verdade que a chave da felicidade está guardada em nós mas se nos derem um empurrãozinho, nós agradecemos :-)!

27/11/11

União...


De tempos a tempos os meus pais contam histórias de quando eram pequenos, da guerra, da escassez, de como as famílias se ajudavam umas às outras, de como se vivia naqueles dias de severa desgraça. Quando recordam aquela época, fixam os olhos no chão e rapidamente dizem que graças a Deus tudo mudou e que o melhor é mudar também de assunto. Não consigo imaginar como ultrapassaram tudo e quando escuto aqueles desabafos, a única coisa em que penso é em como sou abençoada por nunca me ter faltado nada.

Agora vivemos afundados na crise, na pobreza, no desemprego, no entra ou sai da UE (ao que parece, a propósito, ninguém percebeu ainda como se faz… e também se fala de uma UE só dos fortes porque – como diz a música – “dos fracos não reza a história”). Curiosas histórias estas. Grande união essa a europeia e que exemplo nobre de federalismo.  Só falta mesmo erguerem umas estátuas à Goldman Sachs e à Fitch, pela personificação da institucionalização do medo e da loucura; hurray! para estes grandes gigantes dos mercados financeiros, o que seria se nós sem eles. E tudo continua exactamente na mesma porque nada se pode contra o poder e contra o dinheiro. E lá vamos, obedecendo estoicamente porque a suposta integração, que deveria significar também união, afinal tem desvios.

Quando os meus pais nasceram, a taxa de analfabetismo deste país era vergonhosa, o acesso à justiça uma miragem, a saúde pública não existia… tudo era miserável. Passaram mais de 70 anos, tudo mudou. É fácil falar do que está mal, deixar sair o rol de críticas a tudo e a toda a gente mas, se voltarmos atrás no tempo, aos anos 40, só um distraído não percebe que as coisas mudaram e melhoraram, que hoje todos temos muito mais conforto e qualidade de vida do que nessa época. Viemos da miséria para o materialismo, agora é a altura de pagarmos a factura de tudo isso e de aceitarmos o facto de que a nossa vida não vai voltar a ser o que foi. Ninguém gosta da mudança, ninguém pode gostar do que está acontecer e parece-me evidente que houve negligência na forma como se geriram as contas do país nos últimos 20 anos mas… e agora? Esta nação está triste, as pessoas deprimidas, tudo cai um pouco mais todos os dias, o panorama é negro e o futuro tem um brutal ponto de interrogação. Mas, pergunto-me, é este o caminho?

A greve geral da semana passada teve um custo de 700 milhões no PIB. Nas próximas semanas há 2 feriados e pontes… mais umas quantas oportunidades para aumentar ainda mais a dimensão do nosso buraco. Creio que já todos percebemos que o governo pouco pode face a tudo o que nos é imposto pela suposta “união”, ora, a continuarmos assim nada poderá melhorar, pelo contrário. Caminhamos rapidamente para o caos, para a revolta, para o ódio e quando isso acontecer tudo será muito pior. Será necessária uma guerra para que este povo entenda o que significa União, o que é ser-se patriota? Não será um tempo de arregaçar as mangas e dar tudo o que é possível para não perdermos o pouco que ainda nos resta?

Não escrevo de “barriga cheia”, pelo contrário. Já passei pelo desemprego, por meses de trabalho sem receber, há anos que não sei o que é um subsídio de Natal e actualmente trabalho com recibos verdes, esses grandes amigos que nos fazem rezar todos os dias para que haja saúde e para que tudo corra bem porque se corre mal, não há chão, não há nada. O que ganho não dá para ir de férias, não dá para assegurar o futuro mas, ainda assim, agarro-me todos os dias aos meus talentos, dou valor ao que tenho, cultivo a esperança em melhores dias e trabalho da melhor forma que sei.

A greve é um direito da democracia sim mas nestas alturas de tremenda incerteza não será também um sinal de indiferença? Um sinal de “eles que resolvam já que foram eles que criaram isto”? Não será uma forma de nos desresponsabilizarmos pelo que acontece lá fora, julgando nós que o que está lá fora não entra cá dentro? Talvez este seja o tempo de produzirmos o mais possível, de trabalharmos com rigor e profissionalismo e de nos unirmos cada vez mais, para o bem de todos nós. Talvez assim seja possível evitar um mal maior.

"You have to accept whatever comes and the only important thing is that you meet it with courage and with the best that you have to give."
Eleanor Roosevelt

24/11/11

True


21/11/11

Second Chances


20/11/11

Deus leva os que Ama


Era um homem de carácter, honesto, sensato, sorridente, de coração bom, um homem honrado. Pertencia àquela geração que encara o trabalho como uma dádiva e por isso trabalhava sempre, nas suas coisas ao fim de semana, no seu trabalho todos os outros dias. Era raro parar, dizia que a reforma estava a chegar e que nessa altura passearia mais e teria tempo para descansar… apenas 3 meses depois de se aposentar, o destino apareceu-lhe mascarado de dor na perna; parecia apenas uma dor mas depois de intermináveis exames médicos não restavam dúvidas. Lutou com a alma de homem de esperança que sempre teve e mesmo nos momentos mais difíceis iluminava-se-lhe o rosto quando a sua neta mais pequena chegava, quando a sua mulher – por quem era apaixonado há mais de 40 anos – lhe chamava querido, quando a sua filha lhe dizia ao ouvido o quanto gostava dele.

Viveu pouco mas foi feliz, conseguiu fazer a sua obra, assistiu ao casamento do filho, levou a filha ao altar, viu crescer as três netas, tinha muitos amigos, era carinhoso e isso trazia-lhe ainda mais carinho. Quando se preparava para ter finalmente um pouco mais de paz e para poder gozar tudo o que a vida – supostamente – ainda teria para lhe dar, a doença apareceu, cruel, a fazer lembrar que nada somos face ao inevitável.

Como se continua se não estamos preparados para a partida? Como lidamos com a dor e com a ausência? O que fazemos à saudade, sabendo que é a mais austera das saudades? A presença do mistério e da incerteza nas nossas vidas é real mas preferimos quase sempre ignorar, andar para a frente e não pensar. E assim continuamos, com mais ou menos fé, que é apenas o que nos resta, a fazer o que é possível na loucura de todos os dias, para que os que ficam se sintam amados e amparados.

Qualquer problema perto da inevitabilidade da morte parece agora menor, sem relevância. Quantas vezes deixamos coisas por dizer porque agora não é oportuno e porque é preciso coragem e porque dá trabalho e porque simplesmente agora não? Que a tristeza sirva para percebermos que só temos esta vida e que é importante partir em paz, fazendo o melhor que sabemos, honrando quem nos faz feliz, dando sempre o que temos de melhor. Ele partiu tranquilo, com um leve sorriso de missão cumprida, faz-nos muita falta mas tenho a certeza de que houve festa no céu, afinal – como diz a música: “Deus leva os que ama. Só Deus tem os que mais ama.”


“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.”

Poema de Natal
Vinicius de Moraes, 1960


19/10/11

Acabou-se o Fim

"Foi ontem apresentado o Orçamento de Estado 2012. Uma desgraça, uma violência, uma catástrofe.
Acabaram-se as deduções fiscais, acabaram-se os subsídios de Natal e de férias para muita gente, acabaram-se as isenções em taxas moderadoras e IMI’s e muitos outros benefícios e direitos.

Para mim, acabaram-se também outras coisas.


Acabou-se a conversa da treta. Acabou-se o veneno. Acabou-se o ir para o facebook falar mal do Vítor Gaspar, do Passos Coelho, do Sócrates e dos que lá estiveram antes deles. Acabou-se a conversa de café “pois é, isto está mal...”. Acabou-se a mania de opinar sobre a Economia e sobre as decisões tomadas, achando que sei mais que quem lá está – não sei. Acabou-se a conversa sobre a troika, o FMI, o BCE e a UE, como se na realidade soubesse do que estou a falar – quantos já leram de facto o memorando? E dos que o leram, quantos o entenderam? Acabou-se a mania da perseguição e de achar que é sempre tudo feito com o intuito de nos virem ao bolso. Acabou-se o prazer mórbido de encontrar conforto na ideia de que estamos todos mal e não sou só eu. Acabou-se o complexo dos “velhos do Restelo”, que não foram eles que nos levaram a dobrar o Cabo das Tormentas e a baptizá-lo Cabo da Boa Esperança. Acabou-se de vez a ideia parva de sair deste país e de ir para outro melhor – não há outro melhor que este, esta é a minha pátria e precisa de mim agora, e eu vou contribuir com todas as minhas forças para a levantar da lama. Não lhe virarei as costas. Acabou-se o cinzentismo e o discurso miserabilista de que não há luz ao fundo do túnel – há sempre, ela não vem é ter connosco. Acabou-se a revolta contra os que fazem mal, vinda de quem nem sequer tenta fazer bem. Acabou-se a indignação por não ter dinheiro para comprar um par de calças ou ir de férias para fora. Acabou-se o dedo acusador contra “os vigaristas do costume” e nas costas deles evitar pedir factura para pagar menos. Acabou-se a errada esperança de um dia poder abrir um negociozito com recurso a subsídios. Acabou-se a imoralidade de achar que tenho direito a tudo, apenas porque os meus pais também tiveram.


Chega. Chegou a minha hora.


Vou continuar a trabalhar para produzir e cumprir o meu papel no tecido económico, contribuindo com boa parte do meu vencimento para ajudar a pagar o que os que não podem, não pagam.


Vou deixar de me focar em tudo o que está mal – e se há muita coisa que está mal! – e começar a motivar-me com o que está bem.


Vou começar a ser parte activa nas mudanças que quero ver implementadas. Filiei-me num partido político e vou fazer ouvir a minha voz – podem ter a certeza!


Vou acordar todos os dias e vou pensar no que vou fazer hoje para que amanhã seja melhor.


Vou ser mais consciente nas minhas escolhas e nas minhas compras. Vou tentar comprar sempre Made in Portugal, mesmo que esteja habituado a outros produtos ou outras marcas. Mesmo que seja um pouco mais caro, se puder pagar, compro. Fruta? Portuguesa e da época. Legumes, idem. Combustível? Nacional. Água, cerveja vinho, café, tudo português, que são dos melhores do mundo. E vou tentar fazer as minhas compras mais no pequeno comércio local que nas grandes superfícies.


Férias ou escapadinhas, se as houver, é cá dentro, que Portugal é (mesmo) um país que vale por mil.


Vou gastar menos em coisas supérfluas e mostrar aos meus filhos que é assim que deve ser. Vou educá-los de maneira a não caírem nos mesmos erros da minha geração e das anteriores. Esse será o meu legado e o melhor que todos podemos fazer. Estamos a desperdiçar o presente. Asseguremos o futuro.


Bem sei que infelizmente há milhares de pessoas numa situação muito pior que a minha, que tenho (por enquanto) emprego e casa. Há situações desesperantes, de famílias inteiras sem nada, sem rendimentos, sem casa, sem dinheiro para por comida num prato. E pior, já tiveram tudo isso. Sinto-me um afortunado e um privilegiado, mas não me sinto mal por isso.


Quem ainda tem tudo, tem a obrigação moral de se sentir grato por isso e de ajudar estes portugueses a saírem desta situação. Trabalhando, com optimismo e sentido de união. Estamos todos no mesmo barco. Somos todos portugueses, unidos por uma visão maior que nos levou a descobrir o Mundo. Historicamente, já mostrámos do que somos capazes.


Por mim, o fim acaba aqui. Este barco não vai ao fundo."


PS -Parafraseado livremente o grande Al Pacino (a partir dos 3m35s): "Ou nos erguemos agora como nação, ou morremos como indivíduos."

http://www.youtube.com/watch?v=gdtQrSnEPCM
Por: Richard Warrell_Oeiras, 18 Outubro 2011

16/10/11

If You...


Reblogged from: http://posters-for-good.tumblr.com

05/10/11

“Losing my religion” significa perder a linha, a cabeça, as estribeiras. Nada tem a ver com papas ou rabinos. Aprendi isso e fui dormir. Quando acordei, o Facebook avisou-me que os R.E.M tinham acabado. Justamente na hora em que descobri o que eles tanto me queriam dizer.

“That's me in the corner. That's me in the spotlight”, diz a música. E eu abano a cabeça, não para acompanhar um involuntário passo de dança, mas apenas para consentir. Pois é, aquele sou num canto a pensar como a letra de um tema americano de 1991 tem a ver com este Portugal de 2011.

Estamos todos (uns menos, outros mais) “losing our religion”. Basta abrir os ouvidos nos cafés da cidade. Monotematicamente ruminamos a crise. Atento para o verbo aqui utilizado: “ruminar”. Já nem sequer falamos, gozamos, protestamos, choramos, versamos ou tergiversamos. Cá está, ruminamos. Lá está, eles (preciso dizer quem?) estão a tornar-nos ruminantes, como as girafas, os alces e os bois.

Não estou aqui a conclamar o grito. Quase nada tenho de revolucionário. E o pouco que tenho reduz-se à única frase que sei de Che Guevara (um lugar comum, ainda por cima): “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”. Daí que estou a tentar descobrir uma maneira de fazer saltar a tampa, chutar o balde, virar a mesa, perder o siso mas sem perder o riso. Se souber de alguma, avise-me.”


Excerto da crónica do Edson Athayde publicada esta semana aqui.

Nós já sabemos da crise, do desânimo, da troika, das imposições, do medo, da pobreza, enfim… da triste realidade que nos vai tocando mais aqui, mais ali e, acreditem, a mim já me tocou e não foi ao de leve. Agora o que me deixa doida não é tanto a crise económica é a crise de valores, a ausência de verdade, de brio, de humanidade, o contágio do cada um por si, do dividir para reinar.

Navegamos em mares revoltos e é quando o barco afunda que se vê a verdadeira natureza das pessoas. O que tenho observado nos últimos tempos é vergonhoso, empresas que escravizam os seus funcionários, líderes que não sabem como se comunica/motiva/ensina uma equipa, colegas que têm o machado escondido à espera de uma oportunidade. Pessoas que se esquecem do significado da palavra lealdade e que não têm noção do que é ter carácter. E também muita gente encostada, onde a cultura do “não me chateiem” prolifera. É assim que se renasce? É assim que se constrói? É este o espírito de entre ajuda de que tanto precisamos nestes dias em que temos de ser uns para os outros?

Não admira que perante a desilusão se perca, como diz o Edson, o siso e o riso. Mas ele volta um dia, quanto mais não seja porque o mundo é redondo e o mal que os outros nos fazem a eles retorna. E digo-vos mais, consigo ter dias de riso, porque apesar da tempestade, tenho a bênção de ter na vida pessoas que sabem o que é ser-se pessoa. 
Quanto ao resto e parafraseando um Senhor que muito admiro, chamado Clint Eastwood: “Tentei ser razoável, não gostei.”


26/09/11

This is Your Life


Reblogged from Nothing of Relevance

17/09/11

Prenúncios de Vida e de Morte

Há um prenúncio de morte
Lá do fundo de onde eu venho…


Desnorteada nos confins de uma aldeia semi-deserta de trás-os-montes, páro junto de uma senhora para lhe perguntar como se sai dali. Conforme me aproximo dela percebo que é velhinha mas de uma beleza admirável; tem o cabelo pelo meio do pescoço, todo branco mas farto e denso, uns olhos azuis transparentes cheios de vida e uma pele de porcelana, marcada pelas rugas de uma vida que se adivinha ter sido muito dura. Depois de uma breve conversa, digo-lhe que a acho linda, agradeço-lhe por me ter explicado a saída e ela pede para me dar um beijinho. Despeço-me da senhora com o coração apertado e ela diz-me, com a lágrima no canto do olho, “que Deus te proteja, minha filha”.

Aqui não há cafés nem supermercados, as compras são trazidas por uma carrinha-mercearia que vem todas as semanas; aqui não há pessoas, nem crianças, nem escola, nem posto médico. O que há por aqui é pobreza e uma solidão extrema que se disfarça todos os dias com umas festas nos cães, nos gatos, nas galinhas… os bichos parecem ser o que lhes resta para que se sintam vivos. Não há um único animal que fuja de um humano, até eles parecem gostar de conversa e fazem tanta companhia que são acarinhados como membros da família. 




As casas mais bonitas, de arquitectura típica da região, estão abandonadas e a cair. O que se vê, de quando em quando, são casas novas com traços de “importação” mas também estas estão de olhos fechados, em silêncio, talvez a aguardarem um regresso que teima em acontecer.

Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
Tolheste os ramos onde pousavam
Da Geada as pérolas as fontes secaram

Mas por outro lado aqui tudo é bonito, a pureza das gentes é tocante, a força da natureza transmite uma energia fantástica que se revela em cada trilho arrebatador, em cada canto de pássaro nunca ouvido, em cada noite estrelada num cenário de brilhos mais que mágico.

A paz dos dias é reconfortante, o silêncio da noite tranquilizador, é fácil viver aqui sem olhar para o relógio, alinhando as nossas horas pelo nascer e pôr do sol. Dorme-se cedo, acorda-se cedo e aproveitam-se os dias numa imensidão de cores oferecidas pelo rio, pelas cascatas, miradouros, castros, pequenas cidades preservadas e carregadas de história… a tranquilidade existe, mora aqui.

Passei os últimos dias numa descoberta dos prenúncios de vida e de morte das terras de trás-os-montes e, até agora, o sentimento de ambivalência permanece. De um lado a morte do que desaparece todos os dias um pouco mais; do outro a possibilidade de descoberta de uma terra de paz, linda, de um segredo por revelar.

Hemisfério fraco outro forte
Meio-dia não sejas triste
A bússula não sei se existe
E o plano talvez aborte

E é a pronúncia do Norte
Corre um rio para o mar

(Perdoem-me os GNR pelo uso destas letras…).

31/08/11

Pelos caminhos de Portugal...

Aqui, nos confins das terras lusas, resolvo fazer um caminho a pé - segundo o texto indicativo - de "moderada" facilidade. Devo dizer-vos que das duas uma, ou eu estou completamente acabada ou o texto foi escrito por alguém com alma e pernas de betão, que tem uma estranha noção do que significa "moderação" e derivados.

A ideia era meter o nariz numa cascata muito afamada por estas bandas (que a propósito está seca!) e lá vou eu cheia de entusiasmo… e desce e desce e desce e está muito calor e caraças pá isto nunca mais acaba de descer??? E quando avisto o abrigo de madeira percebo que a 1ª descida está feita mas que falta a pior… descidas a pique até ao magnífico e generoso amigo Douro... bom mas que raio… se já cheguei aqui, também hei-de conseguir ir lá abaixo. E lá vai ela.

Na subida de volta não há um cajado (cuja santa ajuda teria sido muito apreciada), a água estava quase a acabar, sombras nem vê-las e a subida castigava muito mais que a do Bom Jesus de Braga. O nome do local deveria ser aliás "caminhozinho-amistoso-para-a-remissão-total-e-completa dos pecados-do-passado-e-dos-que-hão-de-chegar-no-futuro".

(Por estas alturas, Carocha pensa realmente ser dotada de uma mente pródiga em ideias loucas.)

Neste cenário tão moderadamente moderado não se avista vivalma, com excepção das rolas, perdizes, andorinhas de não sei onde, lagartos, lagartixas, gafanhotos, abelhas, moscas e etc, etc, etc... mas esses infelizmente não aparentam apreciar a magnífica companhia humana que por ali se arrasta.

Resta portanto, à tal intrépida criatura, a única opção possível: continuar a subir. Três horas depois do início de tão “afamado” percurso, “moderado” e "tranquilo", Carocha sem fôlego, sem água, a pingar e a rezar, consegue avistar a estrada e o seu sossegado e amigo carro.

Seria agora muito urgente encontrar água (ao contrário das placas de sinalização, dos cafés, da rede no telemóvel, as fontes por aqui abundam; pronto, há umas que dizem “água não controlada” mas quando a sede aperta há que ter fé!). E lá estava uma fontezinha linda mesmo à espera… ela abre a torneira e nos primeiros segundos nada; e - quando já considerava a hipótese de tomar um banho naquele cubículo de água cheia de verdete - voilá!! eis que surge a bênção: água fresca contaminada ou não, que a sede é negra e depois logo se vê.


E assim se vai meus amigos - como diria o Mário Gil - pelos caminhos de Portugal. 

05/08/11

Você É...

"Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. 

Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. 

Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda.

Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima.

Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.

Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê."

Martha Medeiros


24/07/11

Verdi para... Pensar.

Porque somos todos cada vez menos livres, porque tantas vezes nos deixamos dominar pelo medo e porque a nossa dor é sempre maior do que a dos outros; hoje deixo aqui um vídeo com uma música intemporal e a uma pequena história.
Que sirva para pensarmos um pouco.



“… Alinhemos os factos para estabelecer o ambiente. Primeiro, foram anos extremamente difíceis em que os seus projectos e tentativas de realização não frutificavam, produzindo no compositor uma profunda decepção, a ponto de pensar em abandonar a carreira. Segundo, a família enfrentava terríveis problemas financeiros, e Verdi começa a ter problemas de saúde. Terceiro, em apenas dois meses de 1840, morrerem-lhe dois filhos e a 1ª esposa, de apenas 27 anos, Margherita Barezzi. Toda a sua família é exterminada mas Verdi sobrevive. Em seguida, a Opera Un Giorno di Regno foi um fracasso. 

Atormentado pela tragédia e ressentido com a fria recepção da sua Ópera, promete que não voltaria a compor. Parecia que sob a vida de Verdi se abatera um terrível cataclismo. Disse Verdi sobre estes dias: “Com a alma torturada pelas desventuras, desgostoso com o insucesso do meu trabalho, fiquei convencido de que era inútil esperar consolação na arte e decidi não mais compor”. Entretanto, Bartolomeo Morelli, director do Teatro alla Scala, insistiu e o fê-lo assumir a composição de uma nova Ópera, Nabucco. No meio de muitas hesitações, conclui o seu trabalho. A 9 de Março de 1842 é apresentada a Ópera Nabucco. Foi um extraordinário sucesso… imaginem o clímax que deve ter sido o final do 3º Ato, com o Coro Va pensiero sul'ali dorate. O texto foi escrito pelo poeta Temistocle Solera, inspirado nos versos do Salmo 137:

“Junto aos rios da Babilónia
nós nos sentamos e choramos 
com saudade de Sião.
Ali nos salgueiros 
penduramos as nossas harpas;
ali os nossos captores pediam-nos canções,
os nossos opressores exigiam 
canções alegres dizendo:
‘Cantem para nós uma das canções de Sião!’
Como poderíamos cantar 
as canções do Senhor 
numa terra estrangeira?
Que a minha mão direita definhe
Ó Jerusalém, se eu me esquecer de ti!
Que a língua se me cole ao céu da boca,
se eu não me lembrar de ti, 
e não considerar Jerusalém 
a minha maior alegria! 
Lembra-te, Senhor, dos edomitas e do que fizeram 
Quando Jerusalém foi destruída, 
pois gritavam: ‘Arrasem-na até aos alicerces!’ 
Ó cidade de Babilónia, 
destinada à destruição, 
feliz aquele que lhe retribuir 
o mal que você nos fez!
Feliz aquele que pegar os seus filhos
e os despedaçar contra a rocha!”

A identificação da assistência, sob domínio austríaco, com o sofrimento dos judeus foi imediata. A música e a poesia são mais uma vez, o veículo para o sentimento do Povo: as manifestações anti-austríacas são inevitáveis. Sabemos que o Coro dos Escravos não se tornou em apenas mais uma peça musical... Ele galvanizou os sentimentos de uma nação, e concedeu-nos o maravilhoso e gigantesco acervo das Óperas de Verdi... E contínua a inspirar todos aqueles para quem a liberdade é inegociável... “

Liberdade... By Gallut (adaptado)

11/07/11

O povo unido...


O fenómeno da Moody's está a dar que falar... a última vez que me lembro de tamanha aderência estávamos no Euro 2004 e Portugal inteiro tinha a bandeira à janela.
Que venham as t-shirts e os sacos do lixo (vale a pena espreitar aqui), afinal de contas é por uma boa causa. Em calhando, talvez até não seja má ideia reutilizar as bandeiras, temos de ser ecológicos ;-)!

04/07/11

A magia de Pina_Wenders

"dance, dance, otherwise we are lost"

Para quem gosta de dança, para quem quer ficar a saber um pouco mais sobre a Pina Bausch, para quem gosta do Wim Wenders. Levem os óculos e um lenço de papel ;-)!

Imagem de Oystermag.